Ela acordou sem lembrar de como havia chegado ali.
Não era dor o que sentia, nem medo. Era algo mais sutil — uma sensação de estar deslocada, como se tivesse sido colocada em um ponto exato do mundo sem ter passado pelo caminho até ele. Regenshai se erguia diante dela com suas muralhas firmes, ruas de pedra clara e vozes que ecoavam como se tudo estivesse… normal.
Demasiado normal.
Pessoas iam e vinham, negociavam, riam, discutiam preços. O som metálico de um ferreiro martelando aço se misturava ao cheiro de comida recém-preparada. Era uma cidade viva, funcional, segura. Ainda assim, algo dentro dela dizia que aquela segurança era frágil. Como vidro bem polido: bonito, confiável — até o primeiro impacto.
Ela era uma templária.
Ao menos, era isso que suas mãos sabiam.
Quando segurava o escudo, o braço encontrava o equilíbrio sozinho. A espada parecia reconhecer seus dedos, como se já tivesse sido empunhada inúmeras vezes antes, mesmo que sua mente não se lembrasse disso. Era uma estranha contradição: o corpo lembrava, a consciência não.
Foi próxima à entrada da cidade que ela encontrou Lillola.
A mulher não se destacava pela aparência, mas pela presença. Havia algo de acolhedor nela, algo que fazia o ar parecer menos pesado. Quando seus olhares se cruzaram, a templária sentiu um aperto inesperado no peito — uma emoção que não sabia nomear, como saudade de algo que nunca teve.
Lillola falou pouco. Falou de caminhos, de seguir em frente mesmo sem entender, de confiar no movimento do mundo. Suas palavras não soavam como ordens, nem como conselhos. Soavam como… cuidado. Quando a templária se afastou, teve a sensação estranha de estar sendo observada com carinho — não como alguém importante, mas como alguém querida.
Ela não teve tempo para refletir muito sobre isso.
Do lado de fora das muralhas, a paisagem mudou rápido. A vegetação era baixa, o terreno irregular, e o silêncio parecia atento demais. Foi ali que surgiram os primeiros javalis. Não eram animais comuns. Havia algo errado em seus olhos, em seus movimentos agressivos, quase desesperados.
O primeiro combate foi caótico.
Ela errou golpes, sentiu o impacto do corpo pesado de um javali contra o escudo, quase caiu. O coração batia rápido demais, o ar faltava. Mas quando a lâmina encontrou seu alvo, algo dentro dela se alinhou. Não foi prazer. Foi clareza. O corpo respondeu, os músculos obedeceram, e aos poucos o caos virou ritmo.
Quando o último javali tombou, a templária ficou parada por alguns segundos, respirando com dificuldade. Suas mãos tremiam. Não de medo, mas da compreensão repentina de que aquele mundo não era gentil — e nunca prometeu ser.
De volta ao caminho principal, um guarda a observou com atenção. Falou-lhe sobre os perigos além da cidade, sobre criaturas cada vez mais ousadas, sobre a necessidade de vigilância. Não havia dramatização em sua voz. Apenas cansaço. O tipo de cansaço de quem já avisou muitos outros… e viu poucos retornarem.
Seguindo a orientação do posto avançado, ela encontrou o comandante. Um homem endurecido pelo dever, que falava de segurança, patrulhas e ordens, mas cujos olhos denunciavam preocupação constante. Foi ele quem mencionou um nome com respeito contido: Moah Bariel.
Encontrar Moah foi… desconfortável.
Ele parecia saber mais do que dizia. Muito mais. Seus olhos a analisaram como quem observa não apenas o presente, mas as possibilidades. Falou pouco, escolheu cada palavra com cuidado quase excessivo. Não mentia — disso a templária tinha certeza — mas também não contava tudo.
Foi por intermédio dele que ela chegou à Central da Pran.
O lugar tinha uma atmosfera diferente. Não mais pesada, nem mais leve — apenas viva. A cuidadora explicou o que podia: que as Prans não eram ferramentas, nem bênçãos simples. Eram vínculos. Fragmentos de algo maior. Entidades que cresciam conforme a ligação com aquele que as acompanhava.
Para atrair a Pran, a templária precisou sair novamente, enfrentar criaturas menores, recolher itens simples. Nada heroico. Nada grandioso. Apenas persistência.
Quando a Pran finalmente apareceu, em sua forma de fada, frágil e luminosa, o mundo pareceu… silenciar.
A pequena criatura flutuava diante dela, observando com curiosidade absoluta. Quando seus olhares se encontraram, algo aconteceu — algo invisível, profundo. Não foi magia comum. Foi troca. Emoção. A templária sentiu como se uma parte de si tivesse sido tocada e reconhecida.
Ela não estava mais sozinha.
Ao retornar à Central, a cuidadora explicou o básico: alimentar a Pran, cuidar, observar seus sinais. Falou que, se negligenciada, ela retornaria à Central. Não por punição, mas por instinto. A Pran não pertencia. Ela escolhia.
O retorno a Moah Bariel foi diferente dessa vez. Ele notou a Pran imediatamente. Seus olhos se demoraram nela por um segundo a mais do que o normal. Houve algo ali — reconhecimento, talvez. Ele falou pouco, como sempre, mas entregou à templária maçãs simples, alimento básico para a Pran. Um gesto pequeno, quase doméstico, vindo de alguém tão distante.
Depois disso vieram os aprendizados práticos.
O ferreiro falou sobre aço e limites, sobre como armas refletem a mão que as empunha. O alquimista explicou, com cuidado quase reverente, que equipamentos têm vontade — que refino não é apenas técnica, mas diálogo entre material e intenção. O alfaiate falou de proteção e adaptação, de como o mundo exige mais do que aparência.
Os cristais introduziram novas possibilidades. Não apenas força, mas escolhas. Cada encaixe, uma decisão. Cada bônus, uma direção.
Por fim, o instrutor de habilidades a observou com um olhar avaliador. Não ensinou tudo. Apenas o suficiente. Disse que o resto viria com uso, com erro, com sobrevivência.
Quando a templária deixou o centro de Regenshai novamente, a cidade parecia a mesma.
Mas ela não era.
A Pran flutuava ao seu lado, silenciosa, observadora. O mundo à frente se abria em possibilidades perigosas, desconhecidas. Ela não tinha respostas. Não tinha destino claro. Não sabia por que estava ali.
Mas tinha algo que não tinha ao acordar naquela manhã.
Vínculo.
Consciência.
E a sensação inquietante de que aquilo era apenas o começo.