A Pran dormia .
Não era um “dormir” humano, desses que se afundam em escuridão. Era um repouso leve, como se o corpo pequeno de criança apenas esquecesse por um momento que precisava existir. Ela se aninhava ao ursinho, braços finos envolvendo o tecido como se aquilo fosse o único ponto fixo do mundo. Às vezes, mexia as orelhas élficas, como quem escuta um som distante que ninguém mais ouve.
A templária observava em silêncio, sentada no degrau mais baixo do posto, de volta ao caminho depois de Regenshai. Ainda era estranho dizer “de volta”, como se Regenshai fosse casa. Era mais um porto. Um lugar onde se respirava e seguia.
E agora, seguir significava algo diferente.
Porque não era mais apenas ela.
Era ela… e aquela pequena presença que, de alguma forma, já ocupava um espaço maior do que qualquer armadura poderia proteger.
A Pran abriu os olhos devagar, piscando como se o ar fosse novidade.
— Você tá… pensando muito — ela disse, voz ainda pequena, mas já mais firme do que no primeiro dia. A templária sorriu sem perceber.
— Eu sempre pensei muito — respondeu.
A Pran fez uma careta, abraçando o ursinho com mais força.
— Isso dói?
A templária demorou um segundo para entender.
— O quê?
A Pran apontou para o peito dela, bem no centro, onde a sensação antiga — aquela inquietação — sempre morava.
— Esse lugar aí. Às vezes ele fica… apertado.
A templária inspirou e soltou devagar. A pergunta era simples, mas era como se alguém tivesse tocado um ponto que ela fingia não ver.
— Não é dor — respondeu, por fim. — É… aviso.
— Aviso de quê?
A templária olhou adiante. O mundo se abria em caminhos, mas um deles parecia puxar com força. Não pelo mapa, não pela lógica — pela sensação.
— De que a gente ainda não entendeu nada — ela disse.
A Pran ficou quieta por um instante. Depois, encostou a testa no ombro da templária, como quem tenta dividir uma parte do peso sem saber se consegue.
— Então a gente vai entender — ela murmurou.
A templária passou a mão pelos cabelos curtos da criança, com cuidado.
— Vamos.
Foi assim que Amarkand voltou a recebê-las: não como território, mas como promessa de coisa ruim.
A terra árida parecia ainda mais desolada naquela segunda passagem. Os golems de barro seco continuavam a vagar, mas agora pareciam menos “criaturas” e mais… sintomas. Como se o solo tivesse aprendido a andar para fugir do próprio esgotamento.
A templária seguiu pelas bordas onde a vegetação tentava sobreviver. O vento carregava poeira e um cheiro de ferro velho. O silêncio era grande demais. As pessoas que ela encontrava falavam pouco, e quando falavam, era sempre como quem tenta não chamar atenção de algo que não quer ser lembrado.
Foi nesse caminho que apareceu a entrada.
A Caverna Recla.
De longe, não parecia nada além de uma abertura escura cercada por pedra molhada. Mas, conforme se aproximavam, a temperatura caía, e o ar ficava úmido demais. A sensação era a de encostar o rosto em um tecido encharcado — não sufocante, mas invasivo.
O detalhe que tornava tudo mais absurdo era o portal.
Um arco antigo, marcado por símbolos que não combinavam com nada que humanos normalmente construíam. A magia ali não brilhava como feitiço comum — ela vibrava, como se o ar estivesse tenso.
A templária parou diante do arco. A Pran se aproximou do lado, encarando as inscrições.
— Isso é… água? — a criança perguntou, apontando para dentro.
Dentro, o túnel parecia mergulhar. O som era de correnteza distante.
— É uma caverna submersa — a templária respondeu.
A Pran arregalou os olhos.
— A gente vai… morrer?
A templária abaixou o corpo e olhou nos olhos dela.
— Não. Tem um portal. Ele segura a água… e protege a gente.
A Pran franziu o nariz, desconfiada.
— E quem protege o portal?
A templária ficou em silêncio por um segundo. A pergunta era inocente, mas fazia o mundo parecer ainda mais perigoso. Porque se alguém ou algo deixou aquilo ali, foi por um motivo.
— A gente vai descobrir — respondeu, e foi o mais honesto que conseguiu.
Na entrada, dois homens esperavam como se aguardassem mais um corpo para contar. Arnold Grissom tinha o tipo de olhar de quem viveu perto demais do limite e decidiu ficar mesmo assim. Moa Ciaran parecia diferente de todos os outros Moas que a templária já encontrara: menos “figura sagrada”, mais alguém que carregava uma sensação antiga no peito e fingia que era apenas dever.
Arnold foi o primeiro a falar. Não com poesia, não com medo. Com pragmatismo.
Falou de criaturas aquáticas e de pessoas que entravam achando que era só uma passagem e voltavam sem olhos — ou não voltavam. Falou de navios afundados no fundo, como se a caverna tivesse engolido histórias que o mundo da superfície fingia que não existiam. Falou, sobretudo, de *materiais*.
Hira. Kaise.
A templária já tinha ouvido aqueles nomes antes, como rumor de mercado e conversa de ferreiro. Mas ali, na boca de Arnold, não eram apenas itens. Eram quase… regras do mundo.
— Hira para arma — ele disse, como quem recita uma verdade natural. — Kaise para armadura.
— Por que estão aqui? — a templária perguntou.
Arnold deu de ombros.
— Porque o mundo esquece coisa demais. E o fundo guarda.
A Pran olhou para a templária, confusa.
— Fundo… guarda?
A templária passou a mão pelos ombros dela, como se pudesse manter a criança segura apenas com toque.
Moa Ciaran falou depois, e a fala dele foi diferente. Não contestou Arnold. Não negou nada. Apenas tornou tudo mais inquietante.
— Alguns acham que refino é força — Ciaran disse. — Mas refino é vontade. É uma conversa com o objeto. E nem todo objeto quer obedecer.
A Pran apertou o ursinho. Seus olhos mudaram, como se ela tivesse ouvido algo por trás das palavras.
— Ele tá… com medo — sussurrou, perto do ouvido da templária.
A templária não respondeu. Só fez um gesto pequeno para que ela ficasse próxima.
— Entrem se precisam — Ciaran concluiu. — Mas entendam: o que está lá embaixo não é só monstro. É memória.
Memória.
Aquilo ficou na cabeça da templária como uma lâmina.
Ela atravessou o portal.
O choque não foi físico. Foi sensorial.
O ar dentro da caverna era frio e úmido, mas não sufocante. A magia realmente segurava o peso da água como um teto invisível, e isso era, de algum modo, ainda mais assustador. O som de correnteza vinha das paredes, como se o mundo inteiro estivesse submerso do lado de fora, esperando por uma falha para entrar.
A luz diminuía rápido. Pedras molhadas refletiam um brilho fraco, e a água escorria por fissuras como lágrimas permanentes. A cada passo, o eco parecia demorar para voltar, como se o espaço engolisse som.
— Tá escuro… — a Pran murmurou.
— Fica perto de mim — a templária respondeu.
A Pran obedeceu rápido, sem discutir. O medo dela não era bravura fingida. Era instinto honesto.
Os primeiros monstros não demoraram.
Um homem meio peixe surgiu das sombras, corpo úmido, olhos opacos, como se tivesse esquecido que um dia foi humano — se é que um dia foi. Atrás, uma água-viva gigantesca flutuava sem água, pulsando como um coração exposto. E as tartarugas… eram enormes, cascos marcados por cicatrizes, como se tivessem atravessado eras.
A templária ergueu o escudo.
O primeiro impacto veio como uma pancada de pedra. O homem-peixe investiu com dentes e lâminas improvisadas. A templária bloqueou, sentiu a vibração subir pelo braço, quase arrancando o escudo do lugar. Respondeu com a espada, golpe curto, econômico, como havia aprendido a fazer quando o mundo começou a punir desperdício.
A Pran se encolheu, mas não fugiu. Ela observava com olhos arregalados, e às vezes fazia um som pequeno — um “ah!” engasgado — cada vez que o perigo chegava perto.
— Não olha tanto! — a templária grunhiu, sem tirar os olhos do inimigo.
— Eu preciso olhar! — a Pran respondeu, voz tremendo. — Se eu não olhar, eu… eu não entendo!
A templária quase sorriu. Quase.
O combate ficou mais duro conforme avançavam. A cada corredor, mais criaturas. A cada curva, menos luz. E não era apenas físico: havia uma pressão no ar, como se o lugar tentasse empurrá-las para fora. Como se dissesse, em silêncio: *vocês não pertencem aqui*.
No meio do caminho, viram o acampamento.
Duas figuras vivas num lugar que parecia feito para não ter vida. Ivan Christoph e Eli Oreiro mantinham uma fogueira pequena, fraca, como se o fogo também estivesse cansado. Tinham olheiras profundas e mãos que tremiam de exaustão ou de medo.
Eles falaram como quem fala para não enlouquecer.
Explicaram que estavam ali porque alguém precisava manter rota, marcar perigo, guiar quem entrasse depois. Disseram que a Evigenia estava mais ao fundo — um navio afundado dentro da caverna, como se a água tivesse engolido uma época e deixado o esqueleto para trás.
Ivan olhou para a Pran com uma expressão que misturava pena e esperança.
— Não vi muitas assim por aqui — disse, baixo. — Ela fala?
A templária hesitou. A pergunta parecia simples, mas carregava o peso de tudo. Falava… sim. Mas por que isso importava tanto?
— Agora fala — respondeu.
A Pran, tímida, se encolheu atrás da templária.
Eli soltou um riso curto, sem alegria.
— Que bom… que alguém ainda fala.
A templária sentiu um frio nas costas. Não era da caverna. Era da ideia de que o mundo estava ficando cheio de lugares onde a voz humana se perdia.
Eles avisaram sobre o que vinha depois: um trecho mais aberto, um caminho que parecia levar direto ao navio, e que era onde as criaturas se aglomeravam. Como se o navio fosse um coração apodrecido atraindo tudo ao redor.
— Se vocês forem… não vão com pressa — Ivan disse. — O fundo gosta de quem corre. Ele pega primeiro.
A templária agradeceu com um gesto. Não havia palavras que resolvessem aquilo. Pegou o caminho novamente.
Conforme avançavam, o chão ficava mais irregular. Pedaços de madeira apareciam, pequenos fragmentos — sinais do navio antes mesmo de ele surgir inteiro.
E então, finalmente, a Evigenia apareceu.
Um navio de madeira, enorme, afundado no fundo da caverna como uma história que não deveria estar ali. O casco estava quebrado em partes, e algas e limo cobriam as tábuas como se o tempo tivesse abraçado aquilo e decidido nunca mais soltar. A visão era tão absurda que por um instante a templária apenas parou.
A Pran também.
— Um barco… aqui? — ela perguntou, voz quase respeitosa.
— Sim — a templária respondeu. — Como se o mundo tivesse esquecido que isso aconteceu.
Havia três figuras perto do navio, como sentinelas do limite final daquele ato: Ricowalt, Moa Berggren e José Martis. O trio não tinha o conforto do posto na entrada, nem a fragilidade do acampamento intermediário. Tinham outra coisa: uma certeza cansada.
Ricowalt falou de rotas dentro do navio. Disse que havia entradas diferentes, e que, dependendo de onde se entrava, o que se encontrava mudava. José citou a Evigenia inferior — um buraco no casco, levando a um trecho onde as criaturas eram como as da caverna. Falou de Kaise, do peso da defesa, de como algumas armaduras pareciam “responder” melhor depois de certo limite.
Moa Berggren falou menos, mas quando falou, o mundo pareceu inclinar.
— Vocês acham que refino é só subir números — ele disse, sem olhar direto para a templária. — Mas refino desperta.
A Pran segurou o ursinho mais forte.
— Desperta o quê? — ela perguntou, antes que a templária pudesse impedi-la.
Berggren olhou para ela. Seus olhos ficaram suaves por um segundo, como se ele visse nela algo que não queria nomear.
— O que dorme dentro das coisas — respondeu. — E o que dorme dentro de vocês.
A templária sentiu o peito apertar. A frase era simples, mas carregava a sensação de que tudo que ela fazia, todo passo, toda escolha… estava acordando algo.
Eles não impediram a entrada. Não mandaram. Não proibiram. Apenas avisaram com o tipo de aviso que não tenta ser convincente: o aviso de quem viu gente demais falhar.
A templária decidiu.
Ela desceu pela Evigenia inferior.
A entrada era um rasgo escuro no casco. O ar ali parecia mais frio, mais pesado, como se a própria madeira estivesse respirando água. Dentro, os corredores eram estreitos, e o som de gotas caindo parecia marcar tempo.
As criaturas eram as mesmas — homens-peixe, água-vivas, tartarugas — mas mais agressivas, como se proteger aquele lugar fosse instinto. Havia algo errado, porém, além do combate: pequenos fragmentos brilhavam no chão, pedaços de Kaise, como escamas de uma armadura que o mundo estava descascando.
A templária recolheu alguns, com cuidado. Não como quem coleta loot. Como quem pega um pedaço de osso antigo.
A Pran, atrás, observava.
— Isso é… importante? — ela perguntou.
— Sim — a templária respondeu. — Mas eu ainda não sei por quê.
A Pran fez silêncio por alguns segundos. Depois disse, baixinho:
— Eu sinto… que isso lembra de coisas.
A templária parou. Lentamente se virou para ela.
— O quê?
A Pran tocou o próprio peito, repetindo o gesto que fizera no Ato anterior, como se esse lugar fosse um radar.
— Quando você pega… eu sinto aqui. Como se… como se alguém estivesse olhando.
A templária engoliu seco. Ela poderia dizer “é imaginação”. Poderia dizer “é só magia”. Mas já tinha visto demais para mentir para si mesma.
— Então fica mais perto de mim — respondeu, e puxou a criança para junto com o braço livre.
A Pran encostou nela, o ursinho prensado entre as duas, e por um instante pareceu mesmo uma filha pequena buscando abrigo em meio ao perigo. A templária sentiu uma ternura que não combinava com o lugar — e isso, de algum modo, doeu.
No fim da exploração, voltaram ao navio principal. Não haviam vencido um chefe lendário, nem derrotado um mal definitivo. Mas saíram carregando algo novo: materiais que o mundo escondia, e uma certeza maior.
O mundo era antigo demais para ser compreendido com pressa.
O caminho de volta pela caverna pareceu diferente. Não porque os monstros tivessem sumido — eles ainda estavam lá — mas porque a templária carregava agora uma memória que não era apenas dela. A Pran olhava para as paredes como se tentasse gravar cada símbolo, cada gotejar, cada eco.
Quando chegaram novamente ao arco mágico, a luz do portal pareceu mais quente do que antes.
Do lado de fora, o ar seco de Amarkand quase parecia mentira.
A Pran respirou fundo, como se pudesse, e murmurou:
— Eu… não gostei daquele lugar.
A templária soltou um riso curto, sem alegria.
— Eu também não.
A Pran olhou para ela, séria de um jeito estranho para uma criança.
— Mas eu gostei… de você me segurar.
A templária ficou parada um instante. Aquela frase atingiu um lugar que ela não sabia que existia. Um lugar humano, frágil, que o mundo não podia refinar, não podia elevar, não podia transformar em número.
Ela passou a mão pela cabeça da Pran e disse:
— Eu sempre vou te segurar.
A Pran apertou o ursinho e assentiu, como se aquela promessa fosse uma lei tão real quanto a gravidade.
Ao longe, a estrada parecia conduzir a outros mapas, a outras crises. O mundo não tinha terminado. O mundo nunca terminava. Mas agora havia uma diferença: a templária não estava apenas sobrevivendo.
Ela estava acumulando fragmentos de algo maior.
E, no fundo do peito, onde a inquietação sempre morava, uma sensação nova começava a se formar.
Não era esperança.
Era pressentimento.
Como se, em algum lugar — talvez no alto das montanhas, talvez dentro de cidades que fingiam normalidade — forças antigas estivessem despertando.
E como se o vínculo entre uma templária e uma criança de orelhas élficas fosse, de alguma forma, uma das coisas que mais as incomodava.
O Terceiro Ato terminava com essa certeza:
A água ali não afogava.
Mas revelava.
E o que havia sido revelado… ainda não tinha nome.