Deixar as Minas de Lender foi como emergir de um pesadelo que ainda se recusava a soltar a mente.
A luz do lado de fora parecia errada no início — clara demais, silenciosa demais. A Templária respirou fundo quando o ar aberto tocou seus pulmões, mas não houve alívio imediato. O eco das palavras de Malik ainda ressoava em algum lugar entre o peito e a memória.
As montanhas de Hessen se erguiam à frente como sentinelas antigas.
Altas, irregulares, marcadas por cortes naturais e trilhas estreitas que serpenteavam entre rochas e vales. O caminho não era gentil. Cada passo exigia atenção. Cada desvio podia significar uma queda longa demais para se levantar.
— Eles cavaram fundo demais… — comentou a Pran, caminhando ao lado da Templária. — Não apenas na terra. Em si mesmos.
A Templária não respondeu. Seus olhos percorriam o horizonte, atentos a qualquer movimento.
Não demorou para os primeiros sinais surgirem.
Insetos gigantes rastejavam entre fendas nas pedras, carapaças brilhando sob o sol pálido. Asas vibrando com um zumbido constante que se misturava ao vento.
O combate ali era diferente.
Não havia gritos, nem palavras distorcidas por fé. Apenas o som seco do aço, o estalo de carapaças quebrando, o impacto de corpos pesados caindo sobre a rocha.
Mais adiante, surgiram eles.
Mineradores.
Ou o que restara deles.
Vestiam uniformes antigos, rasgados e cobertos de poeira escura. As ferramentas que carregavam estavam gastas, mas ainda afiadas. Seus movimentos eram erráticos, instáveis — como se lutassem contra algo dentro de si.
Alguns atacavam sem emitir som algum.
Outros choravam enquanto avançavam.
— Eles ainda estão presos, — murmurou a Pran, os olhos baixos. — Mesmo fora das minas.
A Templária sentiu o peso daquilo mais do que gostaria. Derrotá-los não trazia satisfação. Cada golpe parecia um pedido de desculpas tardio.
Caminhando pelos picos das Montanhas Hessen, terreno começou a mudar e se tornar mais íngreme, algo estranho residia ali.
A rocha sólida deu lugar a um solo escurecido, irregular, marcado por rachaduras profundas. O ar ficou pesado, com um odor metálico e antigo. Pequenas plantas secas se curvavam como se evitassem crescer ali.
— Aqui… — a Pran hesitou. — Algo morreu. E não aceitou.
Os mortos-vivos surgiram lentamente.
Esqueletos quebrados emergiam do chão, ossos rangendo enquanto se reerguiam. Espíritos presos àquele lugar vagavam sem direção, arrastando fragmentos de memória junto com correntes invisíveis. Mais ao fundo, uma presença observava — fria, calculista.
O lich não atacou de imediato.
Ele apenas olhou.
A batalha foi intensa, carregada de magia corrompida e resistência desesperada. Quando finalmente o silêncio retornou, o solo pareceu relaxar — como se aquela terra, por um breve instante, tivesse sido vingada.
Mas a paz não durou.
O caminho adiante levava a uma fazenda isolada.
Cercas tortas delimitavam um campo estranho, onde plantas cresciam de formas erradas. Abóboras enormes se moviam sozinhas, vinhas se contraíam como músculos vivos, e aves altas demais, com olhos atentos demais, caminhavam entre as plantações.
O fazendeiro estava ali.
Keifer Reynolds.
Seu rosto carregava linhas profundas de cansaço, mas seus olhos ainda mantinham algo raro naquele mundo: vontade de continuar.
— “Não posso ir embora,” — disse ele, simples. — “Essa terra é tudo que sobrou.”
A Templária compreendeu sem precisar de mais palavras.
Ajudá-lo não foi heroísmo. Foi humanidade.
Quando deixaram a fazenda para trás, o céu começava a mudar de tom. A luz dourada do fim do dia refletia nas montanhas, criando sombras longas que apontavam para um único destino.
Basilan.
A cidade surgia ao longe, sólida, viva, resistente. Não como um refúgio perfeito — mas como algo que ainda se recusava a cair.
A Pran parou.
Levou a mão ao peito, respirando fundo.
— Está acontecendo de novo… — disse, com calma. Não havia medo. Apenas consciência. — Mas desta vez… eu entendo.
A Templária virou-se para ela, preocupada — mas firme.
O vínculo entre as duas pulsava, silencioso, profundo.
Elas sabiam.
Algo estava prestes a mudar.
E o mundo, mais uma vez, não esperaria por nenhuma das duas.