A entrada das Minas de Lender não se anunciava com grandiosidade.
Não havia portões imponentes, nem estátuas antigas, nem qualquer sinal de glória passada. Apenas madeira apodrecida, vigas reforçadas às pressas e o cheiro pesado de algo que havia sido abandonado… mas jamais esquecido.
A Templária parou por um instante antes de cruzar o limite.
O vento que vinha de dentro das minas não era frio — era vazio. Um sopro seco, carregado de poeira antiga e murmúrios que pareciam escapar das próprias paredes.
— Aqui… — murmurou a Pran, ainda em sua forma jovem. — Este lugar não foi esquecido pelo mundo. Foi rejeitado por ele.
A Templária apertou o cabo da espada.
Ela já havia atravessado cavernas, ruínas e túneis submersos. Já havia enfrentado monstros de carne, pedra e magia. Mas ali… algo era diferente. Não havia hostilidade aberta. Apenas uma sensação incômoda de que alguém ainda esperava.
Os primeiros passos ecoaram longos demais.
As tochas presas às paredes queimavam com uma chama irregular, como se lutassem para permanecer acesas. Entre sombras e entulhos surgiram as primeiras figuras humanas — ou o que restara delas.
Fanáticos.
Vestiam mantos improvisados, pedaços de tecido amarrados ao corpo, símbolos riscados à faca na própria pele. Alguns carregavam ferramentas de mineração transformadas em armas. Outros avançavam de mãos nuas, os dedos tortos, os olhos fundos demais para rostos ainda vivos.
Eles não atacaram em silêncio.
— “La Cindra vê…”
— “La Cindra não abandona…”
— “A verdadeira deusa sangra conosco…”
As palavras saíam como preces quebradas, repetidas entre golpes e respirações ofegantes.
O combate foi rápido — e pesado.
Cada fanático que caía deixava para trás não apenas um corpo, mas um eco. Alguns ainda murmuravam enquanto morriam. Outros sorriam, como se a derrota fosse uma forma de libertação.
A Pran recuou um passo após o último cair.
— Eles acreditam, — disse, com um nó na voz. — Mesmo agora… eles acreditam.
A Templária não respondeu. Havia aprendido que nem toda fé precisa de respostas. Algumas apenas precisam ser interrompidas.
À medida que avançavam, a mina revelava sua verdadeira natureza. Túneis desmoronados davam lugar a salões escavados à força, cheios de marcas recentes. Altares improvisados surgiam entre trilhos antigos, cobertos de símbolos distorcidos da deusa Aika — símbolos reconhecíveis… e ao mesmo tempo profundamente errados.
— Eles pegaram algo que era sagrado… — sussurrou a Pran. — E torceram até doer.
Foi então que a voz ecoou.
— “Então é você.”
Grave. Raspada. Cheia de prazer.
A figura surgiu do fundo do salão principal, caminhando lentamente entre tochas e sombras. Malik era grande demais para aquele lugar — ombros largos, postura torta, uma arma pesada apoiada no chão como se fosse parte do próprio corpo.
Seus olhos brilharam ao ver a Templária.
— “A escolhida.”
Ele sorriu, mostrando dentes manchados.
— “A que ainda acredita que existe luz.”
A Pran sentiu o ar pesar.
— “Vou te matar.” — disse Malik, com naturalidade.
— “Não por ódio… mas para provar que até os deuses falham.”
O combate que se seguiu foi violento.
Malik não lutava apenas com força. Ele falava. Provocava. Ria ao ser ferido, como se cada golpe confirmasse suas crenças.
— “Eles prometeram salvação!”
— “E nos deram silêncio!”
— “Você também será esquecida!”
Quando finalmente caiu, não houve grito. Apenas um último riso fraco, seguido de um suspiro cansado.
O silêncio que veio depois foi absoluto.
A Templária permaneceu imóvel por alguns segundos, observando o corpo no chão. Não sentia vitória. Nem alívio.
Apenas uma compreensão amarga.
— Ele não era o fim de nada, — disse a Pran, suavemente. — Era só… um sintoma.
A Templária assentiu.
As Minas de Lender não guardavam um vilão.
Guardavam um aviso.
E o caminho à frente apenas começava a mostrar o preço de ouvi-lo.